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NÃO QUERO SER LEMBRADO COMO UM COMBATENTE, MUITO MENOS COMO UM HERÓI

 NÃO QUERO SER LEMBRADO COMO UM COMBATENTE, MUITO MENOS COMO UM HERÓI

De: Carlos da Silva L.F.R. Saky

“Eu não quero ser lembrado como um combatente, muito menos como um herói. Eu quero ser lembrado apenas como alguém do povo que lutou pelos seus direitos à liberdade e à independência.”

Esta afirmação encerra uma compreensão profunda sobre o significado de participar numa luta de libertação nacional. Ela não representa uma rejeição da história da resistência, nem pretende negar os sacrifícios daqueles que participaram na luta. Pelo contrário, procura colocar cada participante no seu devido lugar dentro de uma história que pertence, antes de tudo, ao povo. A questão fundamental não é ser lembrado como combatente, muito menos como herói, mas compreender por que razão alguém decidiu levantar-se e resistir quando o seu povo estava submetido à ocupação, à violência e à negação dos seus direitos. Quem entra numa luta de libertação movido pela consciência não deveria fazê-lo para receber reconhecimento, para conquistar um título, para construir uma imagem pessoal ou para criar, no futuro, uma dívida do povo para consigo. A decisão de resistir nasce de uma consciência de que alguma coisa está profundamente errada e de que não é possível permanecer indiferente perante o sofrimento do próprio povo. A resistência, nesse sentido, não começa com o desejo de ser chamado combatente ou herói; começa com a consciência de que um povo tem direitos e de que esses direitos estão a ser violados.

Durante os vinte e quatro anos da ocupação militar indonésia, muitos timorenses sofreram uma violência profunda e prolongada. Muitos foram presos, torturados, violados, deportados, assassinados e massacrados. Muitos morreram de fome, em consequência da guerra, das deslocações forçadas e dos bombardeamentos. Homens, mulheres e crianças sofreram e morreram. Famílias foram separadas, aldeias foram destruídas, populações foram deslocadas e milhares de pessoas viveram durante anos sob medo, perseguição e violência. O sofrimento não atingiu apenas aqueles que estavam diretamente envolvidos na resistência armada. Atingiu o conjunto da população, em diferentes lugares e de diferentes formas. Foi essa realidade concreta, vivida na pele pelo povo timorense, que também motivou muitos a resistir à ocupação militar indonésia. Para quem tinha consciência daquilo que estava a acontecer, permanecer indiferente perante esse sofrimento tornava-se cada vez mais difícil. Resistir era uma resposta à realidade vivida pelo próprio povo.

O estudante fazia parte desse povo. Não estava separado dele, nem podia olhar para o sofrimento do povo como se fosse uma realidade pertencente a outras pessoas. Quando o povo sofria, o estudante também sofria; sofria na própria pele, porque as pessoas que eram presas, torturadas, violadas, deportadas, assassinadas, massacradas ou obrigadas a fugir eram os seus próprios familiares, vizinhos, amigos e compatriotas. Quando uma população passava fome, quando uma aldeia era bombardeada, quando uma família perdia os seus membros ou quando alguém desaparecia por causa da ocupação, o estudante não podia considerar esse sofrimento como algo distante. O sofrimento do povo era também o seu sofrimento. Por isso, quando o estudante tomava consciência da situação em que o seu povo vivia, essa consciência criava uma responsabilidade. A educação não deveria afastá-lo do povo; pelo contrário, deveria fazê-lo compreender ainda melhor a situação e assumir uma responsabilidade maior perante aqueles que sofriam.

É nesse sentido que o estudante deve ser compreendido como filho do povo. O estudante conhece, através da sua formação e da sua consciência, os direitos e os deveres que possui enquanto membro da sociedade. Mas conhecer esses direitos e deveres não significa apenas compreender intelectualmente aquilo que está escrito ou aquilo que se aprende numa sala de aula. Significa compreender que a liberdade, a dignidade e o futuro do próprio estudante estão ligados à liberdade, à dignidade e ao futuro do seu povo. Enquanto o povo estivesse submetido à ocupação militar indonésia, o estudante também não era verdadeiramente livre. Enquanto o povo sofresse a violência da ocupação, o estudante carregava esse sofrimento como parte da sua própria existência. Por isso, para o estudante que tomou consciência da realidade e decidiu assumir a luta, levantar-se e resistir à ocupação militar indonésia era uma consequência dessa consciência. Resistir até à libertação do povo significava também lutar pela sua própria libertação.

A partir dessa compreensão, a participação do estudante na resistência não pode ser interpretada como uma ação realizada por alguém que estava fora do povo e que decidiu lutar “pelo povo”. O estudante lutava porque era parte do povo. Não estava a fazer um favor ao povo, nem a prestar um serviço que posteriormente deveria ser recompensado. Estava a cumprir uma responsabilidade enquanto filho do próprio povo. Essa diferença é fundamental. Quem luta por uma causa que considera justa não deveria transformar posteriormente a sua participação numa espécie de crédito pessoal perante aqueles em nome de quem diz ter lutado. A luta não era uma profissão. Era uma responsabilidade histórica assumida perante uma realidade de ocupação, violência e negação dos direitos fundamentais do povo.

Foi também nesse contexto que o estudante podia assumir uma posição de vanguarda. Ser vanguarda não significava estar acima do povo, considerar-se superior ao povo ou assumir uma posição de privilégio. Significava estar à frente na responsabilidade, na consciência, na organização, na coragem e na disposição para assumir os riscos da luta. O povo confiava nos seus filhos que tinham acesso à educação e que possuíam condições para compreender melhor a situação política e social. Essa confiança colocava uma responsabilidade sobre o estudante. Se o povo acreditava nele, esperava que utilizasse a sua consciência e a sua formação para defender os direitos do próprio povo. Ser vanguarda significava, portanto, servir, assumir responsabilidades e abrir caminho, e não criar uma distância hierárquica entre o estudante e o povo. O verdadeiro significado da vanguarda estava em estar à frente na responsabilidade, mas continuar profundamente ligado ao povo.

Quando o estudante se levantava contra a ocupação, não o fazia necessariamente porque esperava ser reconhecido no futuro. Não precisava imaginar que um dia alguém lhe atribuiria um título, uma medalha, uma posição ou uma recompensa. A sua motivação estava na realidade presente: o povo sofria, a pátria estava ocupada e os seus direitos estavam a ser negados. Era essa realidade que exigia uma resposta. O estudante que assumia a resistência fazia-o porque acreditava que o povo tinha direito à liberdade e à independência. Não lutava para poder dizer posteriormente “eu lutei mais do que os outros”. Lutava porque era necessário lutar. Não procurava uma homenagem pessoal, porque a maior conquista que podia desejar era ver o seu povo livre.

Por isso, existe uma diferença profunda entre lutar pela liberdade e lutar para ser reconhecido como alguém que lutou pela liberdade. A primeira atitude coloca o povo e a causa no centro; a segunda coloca o indivíduo no centro. Quando a motivação principal passa a ser o reconhecimento pessoal, a luta corre o risco de deixar de ser compreendida como uma causa coletiva e passar a ser utilizada como instrumento de afirmação individual. O participante começa a contar os seus sacrifícios como se fossem créditos acumulados, começa a comparar o seu sofrimento com o sofrimento dos outros e, finalmente, pode chegar ao ponto de considerar que o povo lhe deve alguma coisa porque ele participou na luta. Essa lógica contradiz o próprio sentido de uma luta de libertação nacional, porque a liberdade não é propriedade daqueles que participaram na resistência. A liberdade pertence ao povo.

Isso não significa que a memória dos que participaram na resistência não seja importante. Pelo contrário, é fundamental preservar a memória daqueles que resistiram, daqueles que morreram, daqueles que sofreram e daqueles que contribuíram de diferentes formas para a libertação nacional. Mas preservar a memória da resistência é diferente de transformar a resistência num património individual. Uma coisa é recordar a participação de uma pessoa na história; outra é utilizar essa participação como fundamento permanente para reivindicar superioridade, privilégios, cargos ou reconhecimento especial. A história deve recordar os participantes, mas os participantes também devem reconhecer que fizeram parte de uma história muito maior do que eles próprios.

Durante a ocupação militar indonésia, a resistência não foi construída apenas por aqueles que carregavam armas. Houve estudantes, trabalhadores, agricultores, mulheres, jovens, religiosos, funcionários, famílias, mensageiros, pessoas que esconderam combatentes, pessoas que forneceram alimentos, pessoas que transmitiram informações e pessoas que simplesmente sobreviveram em condições extremamente difíceis. Houve aqueles que participaram de forma visível e aqueles cuja contribuição nunca apareceu nos livros. Houve pessoas que perderam familiares, casas, propriedades e oportunidades, sem nunca receber qualquer reconhecimento. Houve crianças que cresceram no meio da guerra, mulheres que suportaram enormes sofrimentos, famílias que foram deslocadas e comunidades inteiras que resistiram simplesmente continuando a existir. A resistência foi feita por muitas mãos e por muitas formas de coragem.

Por isso, ninguém deveria acreditar que possui sozinho a história da resistência. Uma pessoa pode contar aquilo que viveu, pode testemunhar aquilo que viu e pode explicar aquilo que fez, mas não pode transformar a sua experiência particular na totalidade da história do povo. A história da resistência é maior do que qualquer indivíduo, qualquer organização, qualquer grupo ou qualquer geração. Aqueles que participaram nela foram partes de uma luta coletiva. Uns estiveram na frente, outros atrás; uns tiveram funções conhecidas, outros permaneceram anónimos; uns sobreviveram, outros morreram. Todos fizeram parte de uma história cujo objetivo fundamental era a libertação do povo.

É precisamente por isso que não é necessário que alguém passe a vida inteira a enumerar tudo aquilo que fez durante a resistência para provar o seu valor. Quem agiu por consciência não precisa transformar cada sacrifício numa reivindicação permanente. Se alguém se levantou porque viu o sofrimento do seu povo, porque não aceitou a ocupação militar indonésia e porque acreditava no direito do povo à liberdade e à independência, então a sua decisão já tinha um significado em si mesma. Não precisava de saber se seria lembrado. Não precisava de saber se teria um cargo depois da independência. Não precisava de saber se receberia uma homenagem. O importante era que, naquele momento histórico, tinha decidido não permanecer indiferente.

A independência não deveria criar uma hierarquia moral entre os filhos do povo baseada na quantidade de sacrifícios que cada um reivindica. Não deveria existir uma lógica segundo a qual alguns são considerados donos da independência e outros apenas beneficiários dela. Todos os cidadãos são filhos da mesma pátria e a independência pertence a todos. Aqueles que participaram na resistência têm uma responsabilidade especial de preservar a memória e os valores pelos quais o povo lutou, mas essa responsabilidade não lhes confere propriedade sobre a pátria. A luta foi feita para libertar o povo, não para criar uma nova classe de pessoas que pudesse utilizar o passado da resistência como título de autoridade ou privilégio.

Quando alguém afirma que não quer ser lembrado como combatente, muito menos como herói, não está necessariamente a rejeitar a história ou a importância da sua participação. Está, acima de tudo, a rejeitar a ideia de que a participação na luta deva ser transformada numa identidade superior aos outros membros da sociedade. A palavra “herói” pode ser utilizada para homenagear alguém, mas não deve ser transformada numa justificação para colocar uma pessoa acima do povo. Da mesma forma, a palavra “combatente” pode descrever uma função ou uma experiência durante determinado período histórico, mas não deve transformar-se numa propriedade permanente sobre a independência conquistada por todo o povo.

A verdadeira grandeza de quem participou numa luta de libertação não está necessariamente na quantidade de vezes que fala dos seus próprios feitos, mas na capacidade de compreender que a causa era maior do que o indivíduo. Quem realmente acreditava na liberdade do povo deveria sentir-se satisfeito ao ver o povo livre. Quem lutou pela independência deveria compreender que a independência não lhe pertence individualmente. Quem sofreu pela liberdade não deveria exigir que o povo permanecesse eternamente em dívida. A luta tinha um objetivo: libertar o povo da ocupação e permitir que ele próprio determinasse o seu destino.

A maior recompensa da resistência não deveria ser um título individual. É a liberdade. A maior homenagem não deveria ser uma estátua dedicada a uma pessoa. É ver o povo viver livre, com dignidade e com capacidade de decidir o seu próprio futuro. A verdadeira memória da resistência não deveria transformar os resistentes em proprietários da história, mas lembrar que milhares de pessoas, conhecidas e desconhecidas, contribuíram para que o povo pudesse alcançar a liberdade e a independência.

Por isso, quando se pergunta por que razão alguém se levantou e resistiu, a resposta não precisa de ser complicada. Resistiu porque o seu povo sofria. Resistiu porque a sua pátria estava ocupada. Resistiu porque os seus direitos estavam a ser negados. Resistiu porque não podia aceitar que homens, mulheres e crianças fossem presos, torturados, violados, deportados, assassinados, massacrados ou mortos pela fome e pelos bombardeamentos. Resistiu porque era filho desse povo e porque o sofrimento do povo era também o seu sofrimento. Resistiu porque compreendeu que a libertação do povo seria também a sua própria libertação. Resistiu porque acreditava que o povo timorense tinha direito à liberdade e à independência.

É nesse sentido que a afirmação “Eu não quero ser lembrado como um combantente, muito menos como um Heroi. Eu quero lembarado apenas como um povo que lute por seus direitos de liberdade e de independecia.” deve ser compreendida. Não se trata de apagar a história de quem participou na resistência, mas de recolocar essa participação dentro da história maior do povo. Não se trata de negar os sacrifícios, mas de não transformar os sacrifícios numa moeda de troca. Não se trata de rejeitar a memória, mas de defender uma memória que coloque o povo no centro. Porque, no fim, a resistência não foi feita para produzir heróis; foi feita para produzir liberdade. Não foi feita para criar proprietários da independência; foi feita para devolver ao povo o direito de ser livre e de decidir o seu próprio destino.

A luta era do povo. A resistência era do povo. A liberdade era do povo. A independência era do povo. Quem participou na luta foi parte desse povo. E, por isso, talvez a forma mais digna de ser lembrado não seja como combatente, muito menos como herói, mas simplesmente como alguém que, num determinado momento da história, ouviu o chamamento da pátria, sentiu na própria pele o sofrimento do seu povo e decidiu levantar-se e resistir até à sua libertação.

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